formas breves no jornal do brasil. 12/07/09

JBCRITICA

Páginas que imprimem nosso tempo

Bia Lessa e Maria Borba repassam trechos de livros para fixar flagrantes da vida moderna

Macksen Luiz

Palavras, trechos de livros, fragmentos narrativos, piadinhas, blablablá, esse “vasto verbal” está como representação das possibilidades na exploração de linguagens e na colagem de impressões do nosso tempo. Não há linearidade, mas volteio. O cenário engana pela quase imaterialidade de fios e a uniformidade da cor negra. A música e algumas vozes, ruídos e gestos são toques, acordes, sentimentos sonorizados pelo trágico e o banal. Os atores, executores da coreografia de movimentos perplexos, formam um balé de solos dissonantes.

Exercício nº 2: Formas breves, em cartaz no Teatro Tom Jobim, no Jardim Botânico, é mais do que compilação literária com a plasticidade de uma instalação, mas construtivismo cênico que persegue “alguma coisa em vez do nada”. Bia Lessa e Maria Borba zapeam páginas de livros para fixar flagrantes de vida em quadros rápidos que se desfazem logo em seguida, substituídos por outros, sempre tão evanescentes quanto o anterior.

Este desdobramento de leituras, que captura, às vezes, somente uma frase ao fracionar descrições, é a própria essência da montagem, que oscila em alternâncias para estabelecer um fluxo de pensamento. A dramaturgia é retirada do papel, para que a escrita seja traduzida pela volatilidade do palco.

Como um livro aberto

Seleção livre de livros abertos, aparentemente de modo arbitrário, se propõe como exercício cênico de formas teatrais breves. O título é revelador do que se assiste. Assim como a frase projetada ao final – “o homem se faz na linguagem que o faz” – sintetiza o espírito da peça.

Na “complexidade” ensaística desses Exercícios…, o que define o jogo teatral são os seus vários atalhos, que ora conduzem à tradução pelas imagens, ora se expressam pelo anedotário de piada safadinha. Apesar de Bia Lessa considerar que a neutralidade visual elimina a cenografia, a rigor a montagem constrói poderosa arquitetura cênica, na qual os quadros surpreendem continuamente. Os fios que ligam o suicida à morte, para desconectá-lo da vida, têm efeito dramático arrebatador. Os vestidos brancos que dançam até desaparecerem no piso escuro, para ressurgirem negros, diante de corpos nus, emprestam significado definitivo ao emaranhado de liames narrativos. Bia Lessa traz referências das artes plásticas, o que explora sempre com invenção; além de citações oportunas ao teatro-dança de Pina Bausch até o ascetismo de Bob Wilson e a frontalidade de Ariane Mnouchkine. Numa montagem pulsante, com tantas variantes, o elenco se transforma em elemento vivo de quadros em movimento. Estão em cena atores e não-atores, para evidenciar uma teatralidade que não pertence ao intérprete, mas ao coletivo da criação.

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