caderno b – jornal do brasil

Diretora Bia Lessa interrompe hiato de cinco anos longe da direção
Luiz Felipe Reis, Jornal do Brasil

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RIO – É como se o palco do teatro Tom Jobim, incrustado no Jardim Botânico, fosse uma extensão da biblioteca que Bia Lessa resguarda em sua casa, em Santa Teresa. Em vez de prateleiras, atores; em vez de uma sala, um palco – ambiente ideal para expandir e reverberar em alto e bom som o que a literatura, em silêncio, deposita impressa em páginas de papel. E é assim, numa parceria inédita com a dramaturga Maria Borba, sua filha, que a diretora interrompe um hiato de cinco anos para apresentar, a partir desta sexta-feira, a montagem Exercícios nº 2: formas breves. Nele, retoma o caminho anunciado nos Ensaios nº 1 e 2 e delineado mais abertamente em Exercício nº 1 – todos realizados nas décadas de 80 e 90. Se no primeiro movimento, elegeu como cenário o universo literário de Dostoievski, abrindo mão de suas complexas personagens; agora, com fome de letras elevada a potências incontáveis, Bia investe num tour de force capaz de reunir fragmentos de 500 livros, cunhados por diferentes escritores. No teatro de Bia, o livro é a base.

– É um desdobramento natural, sim – analisa. – Mas precisava desse tempo, porque teatro é um trabalho insano, uma doação muito profunda. Acho até que seja um defeito meu, mas não consigo pegar um texto de Shakespeare, que eu amo, e montar uma peça. Apesar de eu adorar, não é aquilo que eu quero dizer. E acredito que tenho de estar conectada, como se o teatro fosse de fato uma necessidade de conhecer e entender minha própria vida.

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Acostumada a transitar em experimentos que propõem testar os limites e interseções que unem vertentes artísticas distintas, como fez em Casa de boneca, em que o vídeo predominava sobre o teatro; ou nas recentes exposições, como Grande sertão veredas, em que o espectador dialogava e interagia com o romance, não viu razão para agir diferente em Formas breves. Enxerga o espetáculo como expressão de um aprofundamento – quase uma declaração de amor – que revela seu fascínio pelas múltiplas possibilidades de interpretação geradas pela disposição de letras, pontos e vírgulas.

– A obra literária explica a vida. E o teatro, de alguma forma, estimula um olhar sobre esta – afirma a diretora. – Trabalho sempre muito interessada em estudar e extravasar os limiares que unem formas de artes. Principalmente na liberdade que a literatura oferece: Estudar o que é a palavra, possibilidades de narrativa e interpretação. O texto de teatro te obriga a caminhar dentro de um universo.

Com trechos de Dostoievski, Tchecov, Thomas Bernhard, Kafka, Sérgio Sant’anna, André Sant’anna, Anaïs Nin, Pedro Almodóvar, Walt Whitman, Antonin Artaud, Elias Canetti, Bertold Brecht, Ian MacEwan, Marguerite Duras, Honoré de Balzac, entre muitos outros, Bia decidiu sedimentar sua pesquisa na observação do homem em seu cotidiano, através de um mergulho na literatura universal. Por se tratar de um exercício aberto, de uma experimentação iniciada sem um norte específico, com a junção de atores e não-atores numa aventura literária, Bia encontra dificuldade na tarefa de restringir as possibilidades de leitura da peça numa temática central. Prefere apontar caminhos que, entrelaçados, garantem sentido a união de personagens e fragmentos de obras escolhidas, no início do processo, aleatoriamente.

– Posso arriscar dois trajetos para explicar a importância do conhecimento: a ideia de que, quanto mais conhecimento adquirimos, mais temos consciência de que não sabemos das coisas. E outra: o conhecimento que nos transforma em homens é o mesmo que, quando muito teórico, nos afasta da própria vida e do que somos – teoriza. – São questionamentos pertinentes. O homem criou tanta coisa e a filosofia e o pensamento se distanciaram tanto da vida que parecem não mais nos pertencer ou atender às necessidades humanas. Tenho a impressão de que está tudo ao contrário. O universo social está do avesso. Uma loucura.

Não é a primeira vez que mãe e filha trabalham juntas, mas agora oficializam a parceria. É quando Maria Borba deixa a assistência de direção, ou as discussões, ideias e sugestões para definitivamente marcar sua assinatura na dramaturgia de um espetáculo. Com a biblioteca de casa transformada num centro de pesquisa quase comunitário, ocupado pelos recém-chegados colaboradores, Maria tratou de organizar as sugestões literárias de cada um.

– Começamos a escolher os textos, autores e livros de modo bastante anárquico – revela. – A partir daí, o desafio era juntar esses cacos sem que a peça ficasse com cara de esquete. Associar, encontrar e fazer a passagem dos fragmentos, como se um texto desaguasse ou pertencesse ao outro.

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Coincidência ou não, o próprio nome do espetáculo vem do título de um livro surgido ao acaso nas mãos de Maria: Formas breves, do escritor argentino Ricardo Piglia.

– Ganhei o livro de uma amiga, não tinha ouvido falar. E ele reúne contos, ensaios, entre outros formatos de literatura, a princípio desconexos, mas que, no final, formam um conjunto, traçam uma linha. Num trecho do livro, ele diz que são territórios que formam um mapa desconhecido. Restou pouco do texto de Piglia, mas a montagem é fruto desse conceito inspirador.

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