Formas Breves no Estado de São Paulo

Reflexões sobre a vida a partir de textos clássicos
Em Formas Breves, Bia Lessa assina a direção e sua filha, Maria Borba, a dramaturgia
Roberta Pennafort – Estado de São Paulo
quinta, 2 de julho de 2009

denisejessicaoperarias

Morenas, baixinhas e bem magrinhas, Bia Lessa, de 50 anos, e Maria Borba, de 30, parecem irmãs. Completam as frases uma da outra, expressam-se de forma semelhante, têm linhas de raciocínio convergentes e até as unhas das mãos estão pintadas com o mesmo esmalte vermelho. Elas são mãe e filha, e são também companheiras de trabalho. Maria já foi assistente de direção de Bia algumas vezes, mas em “Formas Breves”, espetáculo que estreiam no dia 9 no Teatro Tom Jobim, no Rio, os papeis são diferentes.

Dirigido por Bia, Formas Breves tem dramaturgia de Maria, desenvolvida a partir de trechos (por vezes, frases soltas ou mesmo palavras) de obras de escritores que pensaram as questões humanas em diferentes épocas. A peça é o “Exercício Número 2” de Bia, que, em 1987, no “Exercício Número 1”, construiu um roteiro a partir de leituras de “Os Possessos”, de Dostoievski. Era um espetáculo sem texto, que resultava de suas investigações sobre a existência humana. A filha, que mais tarde seria sua assistente (e de outros diretores), participou como atriz.

Bia lança mão de Dostoievski (trechos de “Os Possessos”, “O adolescente”) mais uma vez. E de outros autores os quais também já trabalhou no teatro, como Chekhov (contos) e Sérgio Sant’Anna (“O Voo da Madrugada”). De Ian McEwan, foram pinçados trechos de “Na Praia”; de Bertolt Brecht, “Galileu Galilei”.

O ponto de partida das duas foi “Formas Breves”, livro do argentino Ricardo Piglia. “Fui lendo e ficando maluca, ao ver que de coisas tão fragmentadas você consegue formar algo, e isso que se forma diz mais do que as partes individuais”, conta Maria, que amarrou os textos de forma a não ser possível reconhecer este ou aquele autor de pronto.

O cenário é todo negro. Os figurinos também. O palco, ampliado com a retirada de parte das cadeiras (o espaço cênico tomou dois terços do teatro, que ficou só com 280 dos 600 lugares), é iluminado por “uma nesguinha de luz no meio do negrume gigante”. “Partimos do princípio que a gente só conhece aquilo que vê, enquanto o mundo é de infinitas possibilidades. A gente consegue revelar pequenas coisas nessa vastidão”, diz Bia.

A diretora, que começou no teatro no início dos anos 80, não assinava uma peça havia cinco anos. Nesse período, foi assoberbada por trabalhos tão diversos quanto a concepção dos shows de Maria Bethânia, de desfiles de moda e de exposições. Em todos, ela deixou a marca pela qual é reconhecida, seja por quem admira ou implica com seu trabalho: imagens impactantes, diálogo entre diferentes formas artísticas, experimentalismo, ousadia. “Eu só faço teatro quando tenho algo a dizer. Eu não tinha um texto que me fizesse pensar: esse é o meu assunto”, explica Bia, que tem o maior prazer de trabalhar com a filha.

Maria trouxe sua experiência como física, especializada em cosmologia (ramo da astronomia que estuda a evolução do universo em seu todo). “Uma amiga minha disse: ‘Nossa, física é tão diferente das coisas que você faz!’ Mas pra mim é a mesma coisa”, justifica. “Eu sempre pensei de forma a ir limpando as coisas (um texto, por exemplo), até que fique num ponto em que já se diga tudo. Numa teoria, você não pode usar a mesma informação duas vezes, senão dá errado.”

O elenco de “Formas Breves” é formado por jovens, a maioria na faixa dos 20 anos. Uns têm experiência como atores, outros (estudantes, uma advogada, uma filósofa), não. Eles se reuniram em torno de workshops, no ano passado, realizados duas ou três vezes por semana – sem que houvesse no grupo intenção declarada de que as discussões gerassem um espetáculo teatral. Os temas de pesquisa: a observação do homem em seu cotidiano e da obra criada pelos homens a partir dos livros.

Os ensaios propriamente ditos começaram há dois meses. Foi mais ou menos quando Bia e Maria se deram conta de que aquilo deveria ser mostrado no palco. Além do espetáculo, que deverá ficar em cartaz até 30 de agosto, os encontros deverão ter outros desdobramentos, como um livro e um documentário, com as imagens captadas no processo de elaboração da peça.

Além de terem podido descobrir autores que hoje os encantam (Sergio Sant’Anna, André Sant’Anna, Walt Whitman, Elias Canetti, Thomas Bernhard), os jovens envolvidos se sentem privilegiados por trabalharem com Bia Lessa. “Geralmente o diretor tem algo na cabeça. Com a Bia a gente viu tudo sendo construído”, lembra Mariana Quinhão, atriz de 27 anos. “É uma bagagem para a vida toda. Antes era muito nítido que os textos não eram nossos, mas agora tudo é mais autoral”, diz Larissa Duarte, de 22, estudante de jornalismo.

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